A Polícia Federal (PF) deflagrou, na manhã desta quarta-feira (15), a Operação Narco Fluxo, uma das maiores investidas institucionais contra a lavagem de dinheiro envolvendo a indústria fonográfica e o mercado de influência digital no Brasil. A investigação, coordenada a partir de São Paulo, apura um sistema estruturado que teria movimentado aproximadamente R$ 1,6 bilhão ao longo dos últimos 24 meses.
No centro da investigação está Raphael Sousa Oliveira, de 30 anos, criador e administrador da página Choquei, uma das maiores potências de engajamento do país com mais de 32 milhões de seguidores. Sousa foi preso temporariamente sob a suspeita de atuar como o “operador de mídia” da organização criminosa. Segundo os relatórios da PF, sua função consistiria em utilizar o alcance massivo de suas plataformas para divulgar conteúdos favoráveis aos integrantes do grupo e promover ativamente plataformas de apostas e rifas digitais exploradas pelo esquema.
Além do administrador da Choquei, a operação cumpriu mandados de prisão contra figuras de alto escalão do funk brasileiro, como MC Ryan SP (Ryan Santana dos Santos), detido em Bertioga (SP), e MC Poze do Rodo (Marlon Brendon Coelho Couto da Silva), alvo de buscas no Rio de Janeiro. O influenciador Chrys Dias (Chrystian Mateus Dias Ramos) também figura como um dos presos na ação que mobilizou mais de 200 policiais federais em nove estados e no Distrito Federal.
O “Modus Operandi”: Visibilidade como blindagem financeira
Em coletiva de imprensa realizada nesta tarde, o delegado regional de Polícia Judiciária da PF-SP, Marcelo Alberto Maceiras, explicou a dinâmica da organização. A investigação aponta que a alta visibilidade dessas personalidades públicas era a peça fundamental para que fortunas transitassem sem disparar os alertas automáticos de sistemas bancários.
“Eles se utilizam de pessoas que têm grande visibilidade para fazer a propaganda dessas empresas de apostas ilegais e para movimentar um dinheiro de forma a não chamar atenção das autoridades e dos bancos”, afirmou o delegado Maceiras. Segundo ele, as transações eram frequentemente misturadas a receitas lícitas de shows e publicidade, utilizando ainda criptoativos e empresas de fachada para dificultar o rastreamento por órgãos de fiscalização como o COAF.
A PF acredita que Raphael Sousa recebia altos valores diretamente dos líderes do esquema, como MC Ryan SP, para atuar na gestão de crises de imagem. Essa “blindagem midiática” permitia que os artistas e empresários envolvidos mantivessem uma fachada de sucesso e legalidade perante o público, enquanto participavam da engrenagem de dissimulação de valores.
Bloqueio bilionário e apreensões de luxo
Diante da gravidade dos fatos, a 5ª Vara Federal de Santos autorizou medidas drásticas para a desidratação financeira do grupo. Além dos 39 mandados de prisão temporária (dos quais 33 já foram cumpridos), a Justiça decretou o bloqueio de ativos financeiros que, no somatório total dos investigados, atinge a marca de R$ 1,6 bilhão.
Durante as buscas realizadas hoje, os agentes apreenderam aproximadamente R$ 20 milhões em veículos de luxo, joias, documentos e equipamentos eletrônicos. A quebra do sigilo telemático dos envolvidos também foi autorizada para rastrear as comunicações e identificar novos beneficiários do fluxo ilícito.
A trajetória da Choquei e o rigor das autoridades
A página Choquei, criada em 2014 em Goiás, migrou do entretenimento para a cobertura de notícias de grande repercussão em 2022, sendo frequentemente envolvida em polêmicas sobre a disseminação de informações. A prisão de seu administrador marca um endurecimento das autoridades brasileiras sobre a responsabilidade de grandes portais e influenciadores no ecossistema financeiro do país em 2026.
A Polícia Federal ressalta que o envolvimento de figuras públicas no crime de lavagem de dinheiro não apenas lesa o sistema financeiro nacional, mas também serve para validar atividades criminosas perante milhões de seguidores jovens, o que justifica o rigor das medidas cautelares aplicadas.
O Portal F7 permanece à disposição para a manifestação das defesas técnicas de todos os citados nesta reportagem. O espaço segue aberto para atualizações e novos posicionamentos.