A bióloga Tatiana Coelho de Sampaio, professora da UFRJ e chefe do Laboratório de Biologia da Matriz Extracelular, passou a ganhar projeção nacional e internacional com pesquisas voltadas a um tema que, por décadas, foi tratado como uma das maiores fronteiras da medicina: a recuperação funcional após lesão medular. O trabalho conduzido por sua equipe resultou no desenvolvimento da polilaminina, uma formulação experimental derivada da laminina, proteína presente no organismo e também obtida a partir de placenta humana.
Nos últimos anos, relatos de pacientes com paraplegia ou tetraplegia que voltaram a apresentar algum nível de movimento após receber a substância ajudaram a impulsionar o debate público sobre o tema. Parte desses casos ocorreu em contexto experimental e, em alguns episódios, por decisões judiciais que autorizaram a aplicação fora de um protocolo amplo de pesquisa, o que costuma gerar discussão na comunidade científica sobre limites, riscos e necessidade de coleta padronizada de dados.
O que mudou recentemente foi o avanço regulatório. No início de 2026, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) autorizou o início de um estudo clínico de fase 1 para avaliar a segurança do uso da polilaminina em humanos. Essa etapa é considerada a porta de entrada do medicamento no caminho formal de testes: o objetivo principal é verificar tolerabilidade, eventos adversos e condições de aplicação, antes de etapas maiores voltadas à eficácia.
Segundo informações divulgadas por órgãos oficiais, a fase 1 deve envolver cinco pacientes voluntários com lesão medular aguda completa na região torácica, com aplicação única diretamente na área lesionada, em janela de tempo curta após o trauma, seguindo critérios específicos do protocolo. O estudo tem patrocínio da farmacêutica Cristália, parceira no desenvolvimento.
Sobre os resultados que chamaram atenção antes dessa fase regulatória, reportagens e comunicados citam um estudo piloto com oito pacientes, no qual seis teriam recuperado algum controle de movimentos. O próprio material que repercutiu o tema ressalta que esses dados foram divulgados como pré-print, isto é, ainda sem a etapa completa de revisão por pares, o que impede conclusões definitivas sobre eficácia, apesar do potencial observado.
Na prática, o momento é de expectativa e prudência. A autorização para a fase 1 não significa liberação de uso amplo, nem comprovação de que a substância “reverte” qualquer tipo de lesão medular em todos os casos. O passo seguinte, se a segurança for confirmada, tende a ser a ampliação dos estudos para avaliar eficácia de forma mais robusta, com metodologia capaz de comparar resultados e controlar variáveis como tipo de trauma, reabilitação, tempo de aplicação e evolução clínica.