Uma proteína presente no organismo humano e também obtida da placenta está no centro de uma das pesquisas brasileiras mais comentadas dos últimos anos na área de lesão medular. A laminina, conhecida por participar de processos de desenvolvimento e organização de tecidos, é a base do medicamento experimental chamado polilaminina, que tenta criar condições para a regeneração de circuitos nervosos após traumas na medula espinhal.
A ideia por trás do projeto é que, após uma lesão medular grave, não ocorre apenas o dano inicial do impacto. Com o tempo, surge uma sequência de fatores que dificultam a recuperação, como inflamação, formação de cicatriz e desorganização do ambiente ao redor dos neurônios. Em linguagem simples, o local lesionado vira um terreno hostil para a reconexão das fibras nervosas.
É nesse ponto que entra a polilaminina. Na formulação descrita por órgãos oficiais, a laminina é diluída de um jeito específico para formar a laminina polimerizada, chamada Polilaminina, e a aplicação prevista é intramedular única, diretamente na área afetada. A proposta é atuar como um tipo de suporte biológico, ajudando a reorganizar o microambiente do tecido lesionado, favorecendo a comunicação entre células e tornando o local mais propício para processos de reparo.
Apesar do potencial, a própria Anvisa ressalta um ponto importante: o mecanismo de ação da polilaminina para trauma na medula ainda não está totalmente esclarecido. Isso significa que, embora existam hipóteses e resultados experimentais considerados promissores, a ciência ainda está no estágio de confirmar, com método e repetição, o que de fato acontece no organismo humano, em quais tipos de lesão e com quais limites.
O avanço mais concreto até aqui foi regulatório. Em janeiro de 2026, a Anvisa autorizou o início do estudo clínico de fase 1 para avaliar segurança do uso da polilaminina em humanos. Essa fase, por definição, não serve para provar eficácia, mas para monitorar risco, tolerabilidade e possíveis eventos adversos, inclusive a chance de o organismo produzir anticorpos contra o produto, já que o sistema imunológico pode reagir a substâncias consideradas “estranhas”. O protocolo citado pela Anvisa prevê cinco pacientes, com lesões agudas completas na região torácica, ocorridas há menos de 72 horas e com indicação cirúrgica.
O projeto é associado a pesquisas conduzidas na UFRJ e tem parceria com o laboratório Cristália. Relatos anteriores de melhora de movimentos em pacientes tratados em contexto experimental ajudaram a chamar atenção do público, mas ainda são tratados com cautela por especialistas justamente porque, em ciência clínica, o que define um tratamento é a repetição em grupos maiores, com acompanhamento longo e critérios claros.
Em resumo, a polilaminina é uma aposta científica que tenta “reconstruir o ambiente” da medula lesionada para favorecer reparo. O passo atual é provar segurança em humanos. Só depois, se os resultados forem positivos, o caminho natural é avançar para fases 2 e 3, que avaliam eficácia de forma mais robusta.